Mulheres na estrada: número de habilitações cresce, mas admissões esbarram na falta de estrutura nas rodovias
Por: Platinao - 19 de Janeiro de 2026
Com o envelhecimento da força de trabalho masculina, o setor vê nas mulheres a chance de renovação. Porém, a falta de dignidade nos postos de combustíveis é um dos fatores que impactam na decisão de ir para a estrada
O setor do transporte rodoviário de cargas vive uma mudança de perfil histórica. Enquanto o número de motoristas homens enfrenta estagnação, a participação feminina nas estradas registrou um aumento gradual na última década.
Dados apurados pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelam que, entre 2015 a 2025, o número de mulheres habilitadas nas categorias pesadas (C, D e E) saltou mais de 400%.
Se em 2015 elas eram uma exceção estatística (entre 0,5% e 1,5%), hoje já somam mais de 182 mil condutoras habilitadas, representando 6,5% do total dos motoristas que possuem licença para dirigir nessas categorias.
Mercado de trabalho ainda tem parcela mínima
Apesar do interesse crescente, a barreira de entrada ainda é alta. quando filtramos quem realmente está empregada, a participação das caminhoneiras no setor cai para 1,5%, enquanto os motoristas homens representam 98,43%. As informações são do panorama “Perfil do Caminhoneiro 2024”, realizado pela ANTT com dados do CAGED.
Os homens continuam sendo a maioria absoluta, com cerca de 2,6 a 2,8 milhões de habilitados (93,5% do total). No entanto, as estatísticas da Senatran mostram que esse número está estagnado. O setor enfrenta uma dificuldade crônica em atrair homens jovens, resultando no envelhecimento da frota e na falta de renovação.
A realidade na boleia
Para quem vence as estatísticas e assume o volante, a realidade impõe desafios que vão muito além da direção. A caminhoneira Rosemary Rodrigues, que atua como comissionada em uma empresa do setor de transporte de carga frigorífica, relata que uma das maiores dificuldades é o cuidado com a saúde.
“A falta de preocupação das empresas com a saúde dos motoristas é um problema sério. Nenhuma que conheço oferece planos de saúde; eles pensam que o SEST SENAT é a nossa solução. Isso é especialmente crítico para nós, mulheres. A saúde da mulher, no geral, tem um custo elevado e precisaríamos de um plano para fazer tratamentos preventivos. A realidade é que a maioria de nós só para quando o corpo pede socorro e chega ao limite."
Outra questão que impacta na contratação das mulheres é a busca por uma estrutura que atenda às suas necessidades, assim como os motoristas homens. “O que pedimos é o básico: banheiros limpos, segurança e sermos tratados com dignidade. Infelizmente, nem em todos os lugares o motorista é bem-vindo. Esse sentimento, somado à questão financeira, é um reflexo da desvalorização da nossa profissão”, conta Rosemary.
A vida das “cristais” nas estradas
Não são apenas as motoristas que sofrem com a precariedade. As esposas que acompanham os maridos, conhecidas como "Cristais", enfrentam a mesma situação. Muitas vezes atuando como apoio logístico invisível, elas acabam abandonando a estrada pela falta de condições sanitárias.
É o caso de uma ex-florista Paty Sive que, após anos acompanhando o marido caminhoneiro, decidiu abandonar as viagens. Seu relato expõe a ferida aberta da falta de estrutura sanitária:
"Para acompanhar meu esposo, tive que abrir mão da minha profissão. Tivemos experiências lindas, conhecemos o Brasil, mas os lugares com pouca estrutura para mulher desgastavam demais."
Ela descreve situações humilhantes que se tornaram rotina, evidenciando que os pontos de parada ainda ignoram a presença feminina:
"Cansei de entrar em banheiros para tomar banho e sair chorando por causa da sujeira. Teve uma vez em que a água acabou enquanto eu estava com shampoo no cabelo. Apesar de eu estar sempre ali dando apoio, auxiliando nos fretes e na comida, cansei. Resolvi voltar a seguir minha profissão. Meu esposo continua, mas já com projeto de parar também."
Acolhimento e estrutura como fator de retenção
A demanda por melhores condições de trabalho, citada nos relatos de Rosemary e Patrícia, aponta para uma lacuna no mercado: a falta de locais de parada adequados para receber os motoristas de caminhão.
É por isso que, no Grupo Platinão, procuramos oferecer o máximo conforto para esses profissionais, com alimentação, banheiros limpos e estacionamento com controle de acesso e monitoramento 24 horas. Tudo isso para garantir uma parada segura e tranquila.